Radioterapia no tórax na juventude e o rastreamento precoce

Adrian Calderstone
5 Min de leitura

O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para uma situação em que o tratamento que salvou uma vida pode, anos depois, exigir um cuidado específico. Mulheres que receberam radioterapia no tórax na infância, na adolescência ou no início da vida adulta, geralmente para tratar linfomas, têm risco de câncer de mama comparável ao de portadoras de mutações genéticas. Ainda assim, muitas não sabem que precisam começar o rastreamento bem antes da idade habitual, como mostra uma situação anonimizada.

Uma paciente que se considerava fora do risco

Uma mulher de 29 anos foi tratada de linfoma de Hodgkin aos 16, com quimioterapia e radioterapia na região do tórax. Curada, seguiu por alguns anos o acompanhamento oncológico e, depois, passou a fazer apenas consultas ginecológicas de rotina, sem retomar o assunto do tratamento.

Sem casos de câncer de mama na família e longe dos 40 anos, nunca havia feito exame de imagem das mamas. Em uma consulta, ao relatar o tratamento antigo, recebeu a informação de que fazia parte de um grupo de alto risco e já deveria estar em rastreamento. A notícia gerou surpresa, já que ela associava o câncer de mama apenas à idade avançada e à herança familiar.

Por que a radiação aumenta o risco

O tecido mamário em desenvolvimento é especialmente sensível à radiação. Quando a exposição acontece entre a infância e os 30 anos, período em que as mamas se formam e amadurecem, as células podem sofrer alterações que aumentam a chance de câncer muitos anos depois.

O risco começa a crescer cerca de oito a dez anos após o tratamento e permanece elevado ao longo da vida. Segundo Vinicius Rodrigues, a dose recebida, a extensão da área irradiada e a idade no momento do tratamento influenciam o tamanho desse risco, que é maior quanto mais jovem a paciente era.

Como o rastreamento é organizado

As diretrizes internacionais recomendam iniciar o rastreamento oito anos após a radioterapia ou aos 25 anos, o que ocorrer por último. O acompanhamento combina ressonância magnética anual, exame mais sensível para mamas jovens e densas, e mamografia anual a partir dos 30 anos. Em muitos serviços, os dois exames são intercalados a cada seis meses, e o exame clínico das mamas completa o acompanhamento.

No caso descrito, a paciente iniciou o protocolo com ressonância e mamografia. Os exames não mostraram alterações suspeitas, e ela passou a ter acompanhamento anual programado. Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o principal ganho foi transformar um risco desconhecido em vigilância organizada.

Tratamentos mais recentes reduziram a exposição

As técnicas de radioterapia evoluíram nas últimas décadas. Campos menores, doses mais baixas e planejamento mais preciso diminuíram a quantidade de tecido mamário exposto à radiação. Por isso, o risco tende a ser maior em mulheres tratadas há mais tempo, com protocolos antigos.

A evolução das técnicas, contudo, não elimina a necessidade de acompanhamento. Quem recebeu radiação no tórax em qualquer época deve informar o histórico aos médicos e discutir o plano de rastreamento adequado ao seu caso.

Informação que precisa circular

O problema central é a falta de informação. Muitas mulheres concluíram o tratamento ainda adolescentes, perderam contato com a equipe oncológica e não guardaram registros detalhados da radioterapia. Outras recebem orientação genérica para começar a mamografia aos 40 ou 50 anos.

Registrar o histórico de tratamento no prontuário e perguntar sobre radioterapia prévia nas consultas são medidas simples. Conforme ressalta Vinicius Rodrigues, a avaliação de risco deve considerar todo o histórico de saúde, e não apenas a idade e os casos na família, para que mulheres como a do exemplo não fiquem anos fora do rastreamento de que precisam.

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