Chips RISC-V ganham espaço nos carros inteligentes e podem mudar arquitetura dos veículos

Adrian Calderstone
10 Min de leitura

Changan aposta em arquitetura aberta para reduzir custos de processamento e atender carros que concentram inteligência artificial, conectividade e assistência à condução.

A transformação dos automóveis em plataformas digitais está provocando uma mudança também em uma peça praticamente invisível para o motorista: os processadores. Durante a 6ª Automotive Semiconductor Ecosystem Conference, realizada em Xangai em 16 de setembro, a Changan apresentou sua visão para uma nova geração de chips automotivos baseada, entre outras tecnologias, na arquitetura aberta RISC-V. A fabricante avalia que o avanço da inteligência artificial e da condução automatizada exigirá processadores com maior capacidade computacional, largura de banda e integração. (Auto News)

A discussão acontece em um momento no qual os automóveis utilizam um número crescente de semicondutores para controlar desde funções relativamente simples até sistemas avançados de assistência ao motorista. Dados apresentados na mesma conferência indicam que um veículo elétrico com condução condicional de nível 3 pode precisar de 200 a 300 chips adicionais em comparação com um veículo a combustão de nível 1, enquanto o valor dos semicondutores utilizados pode ser 124% maior. A projeção apresentada no evento aponta ainda que o mercado mundial de chips automotivos pode avançar de US$ 67,7 bilhões em 2024 para US$ 96,9 bilhões em 2029. (Auto News)

Nesse cenário, o RISC-V aparece como uma alternativa às arquiteturas proprietárias tradicionais. Diferentemente de simplesmente comprar um processador pronto, fabricantes e fornecedores podem trabalhar sobre um conjunto aberto de instruções e desenvolver extensões específicas para determinadas aplicações. Para uma montadora, isso abre espaço para adaptar o processamento às necessidades de diferentes sistemas do veículo, embora a utilização automotiva ainda dependa de requisitos rigorosos de segurança funcional, validação, software e certificação.

A Changan afirma que estuda essa arquitetura há vários anos. Segundo Ding Ke, engenheiro-chefe adjunto sênior de desenvolvimento de chips da fabricante, a empresa realizou uma avaliação detalhada de núcleos RISC-V ainda em 2022. A montadora passou posteriormente a explorar extensões personalizadas e arquiteturas voltadas à aceleração de inteligência artificial. A estratégia está inserida em um movimento maior: transformar o carro de um conjunto de módulos eletrônicos relativamente independentes em uma plataforma computacional centralizada e definida cada vez mais por software. (Auto News)

Por que o RISC-V está chamando atenção da indústria automotiva?

RISC-V é uma arquitetura de conjunto de instruções aberta. Em termos simplificados, ela estabelece a linguagem fundamental utilizada entre software e processador, mas permite que empresas desenvolvam implementações e extensões próprias. Essa característica pode ser especialmente interessante para automóveis, nos quais diferentes componentes precisam atender requisitos bastante específicos de desempenho, consumo energético, segurança e funcionamento em tempo real.

A Changan afirma ter encontrado resultados competitivos ao avaliar a tecnologia para microcontroladores automotivos. Segundo Ding Ke, os testes realizados pela empresa indicaram desempenho computacional superior ao ARM em determinados cenários de MCU avaliados pela companhia, com desempenho de tempo real comparável. Em uma implementação RISC-V com pipeline de cinco estágios analisada pela fabricante, a resposta de interrupção poderia chegar à função de entrada em até 120 ciclos de clock. Esses números foram apresentados pela própria Changan e devem ser entendidos dentro das configurações avaliadas pela empresa, não como uma comparação universal entre todas as implementações RISC-V e ARM. (Auto News)

Outro atrativo é a possibilidade de criar instruções específicas para determinadas tarefas. A Changan está explorando uma arquitetura DSA voltada à inteligência artificial utilizando extensões personalizadas de RISC-V. A empresa citou aceleração com precisão mista BF16 e INT8, técnicas empregadas para tornar determinadas cargas de IA computacionalmente mais eficientes. O objetivo declarado é aumentar a relação entre desempenho e custo dos sistemas embarcados. (Gasgoo)

Mas arquitetura aberta não significa automaticamente chip barato ou pronto para uso automotivo. Na própria conferência, especialistas ressaltaram que a expansão do RISC-V depende de padronização, ferramentas de desenvolvimento, processos de verificação e participação de fabricantes e grandes fornecedores. Em automóveis, esses desafios são ainda mais relevantes porque determinados componentes precisam atender requisitos rígidos de segurança funcional. Assim, a disputa não será determinada somente pela arquitetura do processador, mas pela qualidade de todo o ecossistema construído ao redor dela. (Auto News)

Como os chips podem transformar os carros em computadores sobre rodas?

A mudança tecnológica vai além da substituição de uma arquitetura de processador por outra. Durante a apresentação, a Changan destacou a chamada fusão entre cabine e condução, estratégia que procura integrar funções que atualmente podem depender de diferentes computadores. Sistemas de entretenimento, interfaces digitais e recursos de assistência à condução podem compartilhar uma infraestrutura computacional mais centralizada, reduzindo a quantidade de módulos separados espalhados pelo veículo. (Auto News)

A fabricante descreve sua evolução em direção a uma arquitetura chamada de “one box”. O princípio é concentrar processamento para simplificar sistemas, diminuir atrasos de comunicação e reduzir redundâncias desnecessárias. A analogia utilizada durante a apresentação foi a de uma estrutura formada por “cérebro e cerebelo”, na qual diferentes unidades trabalham de maneira coordenada para atender funções que exigem segurança e baixa latência. (Gasgoo)

Essa concentração torna-se mais importante à medida que os carros executam softwares mais complexos. Ding Ke afirmou que aplicações de condução automatizada entre os níveis L3 e L4 podem envolver mais de 1.400 processos ativos. Além disso, modelos de inteligência artificial estão começando a migrar para dentro dos veículos. Segundo a apresentação, modelos com cerca de 7 bilhões de parâmetros já estão sendo implantados em aplicações automotivas, enquanto arquiteturas maiores estão sendo consideradas pela indústria. (Auto News)

A própria Changan vem ampliando sua estrutura de software e assistência à condução. No início de setembro, a companhia anunciou o SDA Pilot, sistema avançado de assistência desenvolvido internamente. Segundo a fabricante, sua equipe dedicada a tecnologias de condução inteligente já reúne mais de 7.500 profissionais. A expansão mostra como software, sensores e semicondutores passaram a ocupar uma parcela crescente do desenvolvimento de um automóvel moderno. (CHANGAN)

O que essa mudança pode significar para os carros dos próximos anos?

Para o consumidor, provavelmente a mudança será pouco visível no começo. Não haverá necessariamente um logotipo RISC-V destacado no painel ou uma diferença perceptível simplesmente porque determinado processador utiliza essa arquitetura. Os efeitos deverão aparecer indiretamente na quantidade de recursos digitais disponíveis, na velocidade das interfaces, na capacidade de processar dados dos sensores e na evolução dos sistemas de assistência à condução.

Para as fabricantes, entretanto, a mudança pode ser mais profunda. Uma arquitetura computacional mais integrada pode reduzir a necessidade de diferentes unidades eletrônicas, simplificar parte do desenvolvimento e permitir maior controle sobre hardware e software. A Changan declarou que um de seus objetivos é justamente reduzir o custo de CPUs e GPUs automotivas, além de ampliar sua participação no desenvolvimento até o nível dos núcleos de propriedade intelectual utilizados nos chips. (Auto News)

A tendência não está limitada a uma única fabricante. Na mesma conferência, representantes do setor apontaram a integração entre diferentes domínios eletrônicos como uma das principais transformações em andamento. Sistemas que antes utilizavam múltiplos processadores estão gradualmente migrando para chips capazes de executar diferentes tarefas. Outra fabricante chinesa, a Dongfeng, relatou no evento que trabalha desde 2020 com RISC-V e prepara aplicações automotivas baseadas nessa arquitetura, mostrando que a tecnologia começa a avançar além da etapa puramente experimental. (Gasgoo)

O desafio agora é transformar potencial tecnológico em componentes confiáveis e produzidos em escala. Segurança funcional, padronização, ferramentas de desenvolvimento, capacidade industrial e custos continuarão determinando a velocidade dessa transição. Ainda assim, a discussão realizada em Xangai deixa clara uma mudança de direção: a disputa pelos carros inteligentes não ocorre somente em baterias, motores elétricos ou inteligência artificial. Ela está chegando ao nível mais fundamental da computação automotiva — a arquitetura dos chips responsáveis por executar tudo isso.

Fontes:

Gasgoo — Changan detalha estratégia de chips automotivos e RISC-V

Gasgoo — balanço da Automotive Semiconductor Ecosystem Conference 2026

Gasgoo — mercado de chips automotivos e avanço do RISC-V

Changan — estratégia de condução inteligente e lançamento do SDA Pilot

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