Polo Industrial produziu quase 750 mil unidades no primeiro quadrimestre, o melhor resultado em quase duas décadas.
O setor de duas rodas está vivendo um dos seus melhores momentos das últimas décadas, e os números do Polo Industrial de Manaus (PIM) ajudam a explicar por quê. Entre janeiro e abril de 2026, as fabricantes instaladas na região produziram 745.824 motocicletas, um salto de 10,6% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo). O resultado representa o melhor primeiro quadrimestre desde 2008, sinal de que a demanda por moto no Brasil segue firme, tanto para uso urbano quanto para lazer. Somado a isso, as projeções da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) indicam que as vendas de motocicletas podem chegar a 2,4 milhões de unidades neste ano, consolidando a moto como o principal meio de transporte individual e de entrega rápida do país. Entender o que está por trás desse crescimento ajuda a explicar tanto os números quanto as mudanças que já se desenham para o restante do ano.
Manaus acelera e alta cilindrada surpreende
Só no mês de abril, saíram das linhas de montagem do Polo Industrial 184.376 motocicletas, o maior volume já registrado para o mês nos últimos 18 anos, de acordo com a Abraciclo. Para o presidente da entidade, Marcos Bento, a expansão reflete diretamente a demanda crescente do consumidor brasileiro por veículos de duas rodas, movida tanto pela busca por mobilidade mais barata nas grandes cidades quanto pelo uso profissional ligado a entregas por aplicativo. Manaus segue sendo o principal centro de produção de motos fora do eixo asiático, e o ritmo acelerado das linhas de montagem tem impacto direto na disponibilidade de modelos nas concessionárias de todo o país, reduzindo prazos de espera que em anos anteriores chegaram a incomodar consumidores em busca de modelos populares.
O que chama atenção, porém, não é apenas o volume total, mas o comportamento de um segmento específico: as motocicletas de alta cilindrada, tradicionalmente associadas a um público menor e mais específico, cresceram 43,3% na comparação com o mesmo período do ano passado. Esse avanço é puxado por uma nova leva de lançamentos voltados a quem usa a moto para viagens e turismo, com marcas como Royal Enfield trazendo a Scrambler Bear 650, equipada com motor bicilíndrico de 648 cm³, 47 cavalos de potência e 5,7 kgfm de torque, além de quadro reforçado e suspensão dianteira invertida de 130 milímetros de curso. A BMW, por sua vez, confirmou a chegada da linha R 1300 GS 2027, produzida na própria fábrica do grupo em Manaus e já equipada de série com ponteira de escapamento Akrapovič em todas as versões.
Já no segmento de entrada, marcas nacionais como a Avelloz preparam a AZ170 Bravo para o segundo semestre, equipada com motor de 170 cc desenvolvido em parceria com a chinesa Loncin, entregando 18,3 cavalos e 1,5 kgfm de torque, e disputando espaço entre as cinco motos mais vendidas do país. Outras marcas também miram o mercado nacional com modelos de nicho, caso da CFMoto Ibex 450, que chega para brigar com rivais como a Himalayan 450 e a Kawasaki KLE 500, mostrando que a diversidade de opções cresce em praticamente todas as faixas de preço e uso.
O avanço silencioso das motos elétricas
Enquanto a produção tradicional bate recordes, um movimento paralelo também ganha força: as motos elétricas. Segundo a Fenabrave, os emplacamentos de veículos elétricos de duas rodas cresceram 47,26% no primeiro trimestre de 2026, saltando de 3.453 unidades no mesmo período do ano anterior para 5.085 veículos vendidos. O número ainda é pequeno perto do total de motos comercializadas no país, mas a taxa de crescimento mostra que o interesse do consumidor por essa alternativa está mudando de patamar, impulsionado por fatores como o custo mais baixo de manutenção e a possibilidade de recarga em casa, sem depender de posto de combustível.
Uma das marcas que mais aposta nesse movimento é a chinesa Yadea, líder global do segmento, que vem ampliando a produção em Manaus, expandindo sua rede de concessionárias e lançando modelos como a Keeness, uma naked urbana elétrica com duas baterias de lítio de 72V e motor central de 11.000 W de potência de pico, além de sistema de recuperação de energia e conectividade integrada. A entrada da Honda no segmento elétrico também deve reforçar essa tendência: a WN7, primeira moto totalmente elétrica da marca, chega ao mercado com 67 cavalos de potência, propondo-se a disputar diretamente com a americana LiveWire no segmento premium de duas rodas eletrificadas.
Outro ponto relevante é o avanço regulatório que acompanha essa expansão. A exigência de itens de segurança e a formalização das regras de habilitação para motos elétricas devem retirar de circulação modelos de baixa performance que hoje rodam sem a devida documentação, o que tende a organizar melhor esse mercado ainda recente e proteger tanto o consumidor quanto quem compartilha a via com esses veículos. Para quem avalia trocar a moto a combustão por uma elétrica, especialistas do setor recomendam calcular com cuidado o perfil de uso: entregadores que rodam bastante e têm onde recarregar entre as corridas tendem a sentir o retorno do investimento mais rápido, enquanto quem viaja por regiões sem boa infraestrutura de recarga ainda pode preferir o motor a combustão por enquanto. Também vale pesquisar a isenção de IPVA para elétricos, já que o benefício varia bastante entre os estados brasileiros e pode mudar de forma significativa o custo total do veículo.
O que o crescimento sinaliza para o consumidor
Com recorde de produção em Manaus, alta expressiva nas motos de grande cilindrada e crescimento acelerado no segmento elétrico, 2026 caminha para consolidar um novo patamar para o mercado brasileiro de duas rodas, depois de já ter batido recordes em 2024 e 2025. Para quem pensa em comprar uma moto neste ano, a boa notícia é a variedade: são opções que vão do modelo de entrada de baixa cilindrada até motos de turismo e aventura equipadas com tecnologia embarcada, passando também pelas alternativas elétricas que ganham espaço a cada mês.
A produção aquecida em Manaus também tende a manter o abastecimento do mercado interno em ritmo forte, o que ajuda a evitar desabastecimento e pressão excessiva sobre os preços, um cenário bem diferente do enfrentado pelo setor automotivo em anos de escassez de componentes. Se as projeções da Abraciclo e da Fenabrave se confirmarem até dezembro, o Brasil deve fechar 2026 com um novo recorde histórico de vendas de motocicletas, reforçando o papel do Polo Industrial de Manaus como o maior centro de produção de duas rodas fora do eixo asiático.
Resta acompanhar se o ritmo forte do primeiro semestre se mantém no segundo, especialmente em um cenário em que tanto a alta cilindrada quanto as elétricas seguem crescendo em ritmo acima da média histórica do setor. Para o consumidor, o recado é simples: nunca houve tantas opções de moto boa disponíveis ao mesmo tempo no Brasil, e acompanhar os lançamentos ao longo do ano pode ajudar a encontrar o modelo certo, seja para o trabalho, para o lazer ou para uma primeira experiência com a mobilidade elétrica.
Fontes:
Revista Duas Rodas | Abraciclo | AutoInforme | Gazeta de São Paulo
