A 175 km de Manaus, um município amazonense se tornou peça-chave na logística do agronegócio. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, especializado em gestão empresarial, que teve Itacoatiara entre as paradas de sua trajetória, a cidade é um exemplo de como a geografia amazônica, antes vista apenas como obstáculo, pode se transformar em vantagem competitiva.
Itacoatiara integra o chamado Arco Norte, conjunto de portos que vem mudando o mapa das exportações de soja e milho do país. Entenda, a seguir, o que é esse corredor, qual é o papel da cidade nele e quais desafios ainda limitam seu crescimento.
Onde fica Itacoatiara e por que ela importa?
Itacoatiara é um dos municípios mais antigos do Amazonas e está situada em um ponto estratégico: perto da foz do rio Madeira, onde ele deságua no Amazonas. A hidrovia do Madeira tem 1.060 quilômetros navegáveis, de Porto Velho, em Rondônia, até Itacoatiara, o que permite que grãos produzidos no norte de Mato Grosso e em Rondônia cheguem em barcaças até a cidade.
De lá, a carga é transferida para navios graneleiros de grande porte, que seguem pelo Amazonas até o oceano Atlântico e, em seguida, para mercados da Europa e da Ásia. A cidade abriga estruturas de armazenagem e processamento de soja, com capacidade para embarcar grãos e farelo. Para Alfredo Moreira, essa combinação de rio, porto e indústria explica por que Itacoatiara ganhou peso muito além de seu tamanho populacional.
O que é o Arco Norte?
O Arco Norte reúne os portos localizados acima do paralelo 16, linha imaginária que atravessa o país na altura do norte de Goiás e do sul da Bahia. Além de Itacoatiara, o corredor inclui terminais como Porto Velho, Miritituba, Santarém, Barcarena, Manaus e Itaqui, no Maranhão.

Durante décadas, a soja do Centro-Oeste percorreu milhares de quilômetros de estrada até os portos de Santos, no litoral paulista, e Paranaguá, no Paraná. O Arco Norte encurta esse caminho e substitui parte do transporte rodoviário pelo hidroviário, mais barato por tonelada transportada. De acordo com Alfredo Moreira Filho, essa mudança mostra como decisões de logística podem redesenhar a economia de regiões inteiras.
Os números da virada logística
O avanço do corredor é expressivo. Segundo levantamento divulgado pelo setor, os portos do Arco Norte passaram de 36,56 milhões para 58,06 milhões de toneladas de soja e milho exportadas em quatro anos, um crescimento de quase 59%. No ano passado, 48% de todo o milho exportado pelo país saiu por esses portos.
Considerando soja e milho em conjunto, o Arco Norte respondeu por 39,5% dos embarques, superando Santos, com 33%. Neste ano, até junho, o corredor manteve participação de 39,1% nas exportações de soja e 35,4% nas de milho. Conforme aponta Alfredo Moreira, números assim indicam uma mudança estrutural, e não apenas uma tendência passageira.
Novos investimentos e o desafio da seca
Itacoatiara segue atraindo projetos. A Agência Nacional de Transportes Aquaviários aprovou a instalação de um píer flutuante na cidade, voltado ao transbordo de soja e milho, com previsão de 130 empregos diretos e 250 indiretos. A estrutura foi planejada para ficar no mesmo ponto do rio onde funcionou um porto provisório durante uma estiagem recente.
O detalhe revela o principal desafio do corredor: a dependência dos rios. A Conab alerta que períodos de seca na Amazônia podem reduzir a navegabilidade e afetar as operações nos rios Madeira, Tapajós e Amazonas. Nesse sentido, Alfredo Moreira Filho destaca que o futuro de Itacoatiara como polo logístico dependerá da capacidade de planejar a operação, levando em conta essas variações do clima amazônico.
