Chery cria centro tecnológico no Reino Unido para desenvolver ADAS, IA e direção autônoma

Adrian Calderstone
11 Min de leitura

Fabricante chinesa instalará centro de pesquisa e desenvolvimento no complexo UTAC Millbrook, em Bedfordshire, para adaptar veículos às condições britânicas e avançar em sistemas de assistência ao motorista, inteligência artificial e condução autônoma.

A Chery Automobile anunciou a criação de um novo centro de pesquisa e desenvolvimento no Reino Unido, ampliando sua estrutura tecnológica fora da China em um momento de forte crescimento das fabricantes chinesas no mercado europeu. A instalação ficará dentro do centro de testes automotivos UTAC Millbrook, em Bedfordshire, e a previsão divulgada pela companhia é de abertura no fim do outono britânico de 2026. Inicialmente, os engenheiros trabalharão principalmente no desenvolvimento e calibração de chassis e de sistemas avançados de assistência ao motorista, conhecidos pela sigla ADAS. (Reuters)

O projeto tem como objetivo permitir que os veículos sejam adaptados com maior precisão às características das estradas e dos consumidores britânicos. O Reino Unido apresenta condições particulares de circulação, incluindo grande quantidade de rotatórias, vias estreitas, curvas, trânsito intenso e diferenças significativas na qualidade do pavimento. Por isso, direção, suspensão, estabilidade e funcionamento dos sistemas eletrônicos precisam ser calibrados levando em consideração essas condições, em vez de simplesmente reproduzir ajustes utilizados em veículos vendidos em outros mercados. (Electric Cars Report)

A estrutura também deverá funcionar como uma base para tecnologias mais avançadas. A Chery informou que pretende posteriormente ampliar as atividades para direção autônoma e inteligência artificial, colocando o centro britânico dentro de uma estratégia de desenvolvimento de veículos cada vez mais dependentes de software, sensores e processamento de dados. A intenção é transformar informações obtidas com consumidores e testes locais em alterações concretas no desenvolvimento dos automóveis. (Reuters)

ADAS será uma das primeiras prioridades

Uma das áreas centrais da nova unidade será o desenvolvimento de ADAS — Advanced Driver Assistance Systems, conjunto que engloba diferentes tecnologias utilizadas para auxiliar o motorista. Dependendo do veículo, esses sistemas podem envolver frenagem automática de emergência, controle adaptativo de velocidade, assistência de permanência em faixa, reconhecimento de elementos da via, monitoramento do entorno e outras funções destinadas a aumentar a segurança e reduzir a carga de trabalho durante a condução.

A calibração desses recursos depende diretamente do ambiente onde o veículo será utilizado. Uma câmera ou sistema eletrônico precisa interpretar corretamente faixas, cruzamentos, rotatórias e diferentes situações de trânsito. Ao instalar uma estrutura própria de engenharia no Reino Unido, a Chery poderá realizar testes e ajustes específicos para as características britânicas, aproximando o processo de desenvolvimento das condições encontradas diariamente pelos consumidores locais. (Reuters)

O próprio complexo escolhido oferece uma infraestrutura extensa para esse trabalho. O UTAC Millbrook dispõe de mais de 70 quilômetros de pistas construídas especificamente para testes, além de circuitos e superfícies destinadas à avaliação de durabilidade, ruído, vibração e comportamento dos veículos. A infraestrutura inclui ainda instalações relacionadas a baterias, sistemas de propulsão, ADAS e desenvolvimento de veículos autônomos. (Electric Cars Report)

Inteligência artificial entra nos planos de longo prazo

Embora chassis e ADAS sejam as prioridades iniciais, a estratégia da Chery prevê uma expansão posterior para inteligência artificial e tecnologias de condução autônoma. A evolução representa uma tendência observada em praticamente toda a indústria automobilística mundial, na qual o desenvolvimento de um novo veículo deixou de depender apenas de motor, suspensão e carroceria e passou a exigir investimentos crescentes em software e sistemas computacionais.

Nos automóveis modernos, algoritmos são utilizados para processar informações provenientes de câmeras, radares e outros sensores instalados ao redor do veículo. Esses dados permitem identificar objetos, acompanhar o movimento de outros automóveis e auxiliar na tomada de decisões de sistemas automatizados. Quanto mais avançado o nível de automação, maior é a necessidade de processamento e validação para que o veículo consiga responder adequadamente às diferentes situações encontradas nas ruas.

A instalação em Millbrook poderá facilitar justamente esse processo de desenvolvimento e validação. Em vez de depender exclusivamente de estruturas localizadas na China, a fabricante terá engenheiros e instalações próximas ao mercado onde os veículos serão comercializados. A companhia também pretende aproveitar o projeto para recrutar profissionais de engenharia no Reino Unido, embora os números de empregos e o valor total do investimento não tenham sido detalhados no anúncio inicial. (The Guardian)

Chery amplia presença no mercado britânico

A decisão de criar o centro tecnológico acontece enquanto as fabricantes chinesas ganham participação no Reino Unido. Dados da Society of Motor Manufacturers and Traders citados pela Reuters indicam que marcas chinesas responderam por aproximadamente 15% dos registros de carros novos britânicos no primeiro semestre de 2026, contra cerca de 10% durante todo o ano anterior. Entre as empresas que impulsionam esse movimento estão MG, da SAIC Motor, BYD e as marcas JAECOO e OMODA ligadas à Chery. (Reuters)

Para a Chery, essa expansão significa que apenas importar veículos desenvolvidos originalmente para outros mercados pode deixar de ser suficiente. Conforme o volume aumenta, cresce também a necessidade de adaptar suspensão, direção, segurança ativa, software e outros componentes às expectativas dos consumidores locais. A nova estrutura de Bedfordshire representa justamente uma mudança para um modelo no qual parte do desenvolvimento passa a acontecer mais perto do mercado final.

A fabricante também vem construindo uma rede mais ampla no país por meio de diferentes marcas. Além de Chery, OMODA e JAECOO já possuem operações britânicas, enquanto a LEPAS integra os planos de expansão. Isso aumenta a importância de uma estrutura tecnológica que possa atender diferentes produtos e plataformas dentro do mesmo grupo. (Electric Cars Report)

Centro britânico fará parte da rede global de engenharia

A nova instalação não funcionará de maneira isolada. A Chery pretende integrar o centro de Bedfordshire à sua rede internacional de pesquisa e desenvolvimento, permitindo que conhecimentos obtidos no Reino Unido também contribuam para projetos desenvolvidos globalmente. A empresa já possui uma relação anterior com o grupo UTAC, incluindo trabalhos relacionados a homologação e segurança realizados em instalações europeias. (Electric Cars Report)

Essa integração é particularmente importante em uma indústria na qual plataformas, sistemas eletrônicos e softwares podem ser compartilhados entre diferentes veículos vendidos em vários países. Um sistema desenvolvido inicialmente para atender necessidades britânicas pode posteriormente gerar informações úteis para outros mercados, principalmente aqueles que possuem características semelhantes de infraestrutura ou legislação.

Para a UTAC, a instalação também representa uma relação de engenharia de longo prazo com a fabricante chinesa. A estrutura disponível em Millbrook permitirá testar não apenas veículos completos, mas componentes e tecnologias em diferentes estágios de desenvolvimento, oferecendo à Chery condições para realizar validações antes que novos sistemas cheguem aos consumidores. (Reuters)

Expansão chinesa aumenta pressão sobre montadoras tradicionais

O crescimento da Chery no Reino Unido faz parte de uma transformação maior do mercado automobilístico europeu. Fabricantes chinesas estão aumentando rapidamente suas exportações e operações internacionais, aproveitando principalmente sua experiência com veículos elétricos, híbridos, baterias, conectividade e sistemas digitais. Essa expansão aumenta a pressão sobre grupos europeus, japoneses, sul-coreanos e norte-americanos que tradicionalmente dominavam o mercado.

Ao mesmo tempo, a competição está deixando de acontecer exclusivamente em torno do preço dos veículos. Tecnologia embarcada, autonomia elétrica, eficiência energética, atualizações de software e sistemas avançados de assistência estão se tornando critérios importantes para os consumidores. A criação de centros locais de pesquisa mostra que fabricantes chinesas também estão tentando construir capacidade de engenharia fora de seu mercado doméstico.

No caso da Chery, o centro britânico representa um passo além da expansão comercial. A empresa passa a estabelecer uma infraestrutura capaz de participar diretamente do desenvolvimento e da adaptação dos veículos dentro da Europa. Isso pode acelerar a resposta às necessidades dos consumidores e facilitar a evolução de tecnologias de segurança, eletrificação e automação.

Centro poderá preparar próxima geração de veículos inteligentes

A entrada futura de inteligência artificial e condução autônoma nas atividades da unidade mostra como a Chery está preparando sua operação para uma nova geração de automóveis. Sistemas automatizados exigem grandes volumes de testes porque precisam funcionar de maneira previsível diante de situações extremamente variadas. Ruas estreitas, condições climáticas diferentes, congestionamentos e comportamentos particulares dos motoristas tornam o desenvolvimento local especialmente relevante.

A possibilidade de combinar testes tradicionais de chassis com desenvolvimento de ADAS e inteligência artificial também cria uma abordagem mais integrada. Suspensão, direção e sistemas eletrônicos não precisam ser tratados como áreas completamente separadas. Em veículos modernos, diversos componentes podem trabalhar conjuntamente para controlar estabilidade, trajetória e assistência ao motorista.

Com a abertura prevista para o fim do outono de 2026, o centro de Bedfordshire deverá representar uma das bases mais importantes da estratégia tecnológica da Chery no Reino Unido. O projeto começa com ajustes relativamente tradicionais de engenharia, como chassis e direção, mas possui um roteiro que aponta diretamente para IA, sistemas avançados de assistência e direção autônoma, áreas que devem definir uma parcela crescente da competição entre as montadoras nos próximos anos. (Reuters)

Fontes

Reuters — Chery anuncia centro de pesquisa e desenvolvimento no Reino Unido

Electric Cars Report — detalhes do centro tecnológico em Millbrook

Just Auto — centro de P&D da Chery e desenvolvimento de ADAS

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