Anfavea revê projeções e prevê melhor ano para o setor automotivo desde 2014

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Entidade elevou estimativa de vendas para mais de 3 milhões de veículos em 2026, mas segmento de caminhões e ônibus segue em queda no acumulado do ano.

A indústria automotiva brasileira recebeu uma notícia animadora no início de julho. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea, revisou para cima suas projeções de vendas e produção para 2026, depois de um primeiro semestre com resultados acima do esperado. A entidade agora espera um crescimento nas vendas de veículos de 12,1% em relação ao ano passado, alcançando a cifra de 3,01 milhões de unidades, o maior patamar desde 2014. O número chama atenção porque a estimativa inicial, divulgada em janeiro, apontava para um avanço bem mais modesto. Para quem acompanha o mercado de perto, a dúvida que fica é: o que explica essa virada tão rápida nas contas da entidade, e o otimismo vai se sustentar até dezembro? Forbes Brasil

O que mudou nas contas da Anfavea

A resposta está, em grande parte, no desempenho dos veículos leves. A expectativa para o crescimento da produção passou de 3,7%, prognóstico anunciado em janeiro, para 5,8%, com a indústria esperando agora um avanço de 12,1% nas compras de veículos no Brasil, bem acima dos 2,7% previstos inicialmente. Se as projeções se confirmarem, as vendas ultrapassarão a marca de 3 milhões de unidades, algo que não acontece desde 2014, segundo a própria entidade. Cruzeiro do Sul

Ao anunciar a revisão, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, resumiu o momento de forma direta. “Temos boas e más notícias”, disse o executivo ao comentar os números atualizados. A frase resume bem o cenário: enquanto os carros de passeio e utilitários leves puxam o resultado para cima, os caminhões e ônibus seguem em dificuldade. Com isso, a produção deve crescer 5,8%, para 2,79 milhões de veículos, ante meta anterior de alta de apenas 3,7%, para 2,74 milhões. AutoindustriaAutoindustria

Outro ponto que chamou atenção na entrevista coletiva foi o descompasso entre produção e mercado interno. O crescimento da produção acontece em ritmo bem menor, proporcionalmente, do que o crescimento das compras de veículos no país, fenômeno associado ao aumento das importações e à perda de espaço da indústria nacional em mercados como o argentino. É esse tipo de detalhe que ajuda a entender por que a euforia com os números de vendas não se traduz automaticamente em mais empregos nas linhas de montagem. Cruzeiro do Sul

Os números do primeiro semestre

Os dados de junho reforçam a leitura de que 2026 está sendo, de fato, um ano fora da curva. No mês, a produção diminuiu 3% ante maio, para 246 mil unidades, mas cresceu 17,2% na comparação com junho de 2025, acumulando no primeiro semestre um avanço de 8,8%, para 1,37 milhão de veículos, o melhor desempenho para o período desde 2019. As vendas também surpreenderam: em junho somaram 272,5 mil unidades, alta de 28% frente ao mesmo mês do ano anterior, e no acumulado do primeiro semestre os emplacamentos cresceram 18,5%, para 1,42 milhão de unidades. Forbes BrasilForbes Brasil

Parte relevante dessa demanda vem dos veículos eletrificados. Segundo Calvet, o crescimento nas vendas foi apoiado por um aumento na procura por modelos eletrificados, que somaram mais de 130 mil unidades no semestre, com forte presença de importações de origem chinesa, enquanto a importação de veículos leves eletrificados cresceu mais de 70% no acumulado do ano. Esse avanço acende um alerta dentro da própria entidade, já que parte da recuperação do mercado está sendo capturada por produtos vindos de fora, e não necessariamente por carros fabricados em território nacional. Forbes Brasil

O segmento de veículos pesados, por sua vez, segue em trajetória bem diferente. Os dados de emplacamentos de caminhões mostram uma queda de 10,5% no acumulado, embora menor do que a registrada no início do ano, com o presidente da Anfavea apontando que essa trajetória ainda precisa ser acompanhada de perto. Essa recuperação recente é puxada pelas rodadas do programa federal Move Brasil, que oferece linhas de financiamento com juros mais baixos por meio do Finame. PerfilPerfil

O que esperar para o segundo semestre

Mesmo com o cenário positivo para os leves, nem tudo são boas notícias na ponta da exportação. A Anfavea prevê uma queda de 12,8% nas exportações neste ano, resultado que impede o desempenho geral de ser ainda melhor, considerando também que os juros no Brasil devem terminar o ano em patamar elevado, com a Selic projetada em 14%, e não em 12% como se esperava anteriormente. Esse detalhe é importante para entender por que, mesmo com vendas recordes no mercado interno, a indústria mantém cautela ao falar do balanço final do ano. Cruzeiro do Sul

No segmento de veículos pesados, o mês de junho trouxe um respiro adicional. Os emplacamentos de caminhões cresceram 3,9% no período, enquanto o volume de produção avançou 15,9% na comparação direta com o mês anterior, com o segmento de ônibus registrando 2.191 unidades emplacadas, expansão de 36,7% sobre maio, impulsionada pelas entregas de veículos escolares do programa Caminho da Escola. Ainda assim, o primeiro semestre como um todo fecha em queda para essa categoria, o que mostra como a recuperação é ainda desigual entre os diferentes tipos de veículo. Perfil

Para o consumidor e para quem acompanha o setor, o recado da Anfavea é claro: 2026 caminha para ser o melhor ano em mais de uma década para carros e utilitários leves, mas o cenário para caminhões, ônibus e exportações segue exigindo cautela. Os próximos meses vão mostrar se o ritmo forte do primeiro semestre se mantém, principalmente diante dos juros ainda altos e da concorrência crescente dos veículos importados, incluindo os eletrificados vindos da China.

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