A indústria automotiva brasileira atravessa um momento delicado, marcado pelo crescimento expressivo de veículos importados, especialmente de marcas chinesas, que já representam cerca de 10% das vendas nacionais. A presença crescente desses carros destaca um problema estrutural: a proteção governamental, embora existente, tem se mostrado insuficiente para sustentar a competitividade das fabricantes locais. Neste contexto, a análise da Stellantis oferece um panorama crítico sobre os efeitos dessa situação no emprego, na produção nacional e na cadeia de fornecedores.
Herlander Zola, COO da Stellantis América do Sul, aponta que a expansão de importações afeta diretamente empresas que produzem no Brasil. Ao favorecer veículos e kits CKD e SKD importados, o mercado local sofre com a redução da compra de insumos e componentes nacionais. Esse cenário não apenas pressiona a indústria em termos de produção, mas também coloca em risco empregos e investimentos que dependem de uma base de fornecimento sólida. Segundo Zola, “o que foi feito até agora definitivamente não é suficiente para garantir condições saudáveis” para o setor.
A questão tributária desempenha papel central nesse debate. O governo federal havia reduzido, em julho de 2025, a alíquota de importação de kits CKD e SKD, o que facilitou a entrada de veículos semiacabados de fabricantes estrangeiras, especialmente chinesas. Com o retorno das alíquotas ao patamar anterior em fevereiro, algumas marcas, como a BYD, continuaram a explorar esse modelo de importação, mostrando que medidas isoladas podem não ser suficientes para proteger de forma consistente a indústria local. A dependência de kits importados cria uma situação em que o investimento de empresas estabelecidas no Brasil perde competitividade frente a importadores.
Para manter a sustentabilidade do setor, Zola sugere que políticas mais robustas sejam implementadas, valorizando empresas que produzem integralmente no país. Incentivos direcionados à inovação, aumento da produção nacional e fomento à cadeia de fornecedores poderiam equilibrar a competição e reduzir a vulnerabilidade frente à crescente presença de marcas internacionais. A experiência recente demonstra que medidas paliativas, como ajustes tributários temporários, não resolvem desafios estruturais e podem gerar impactos negativos a longo prazo.
O panorama atual também evidencia uma oportunidade estratégica para o Brasil. O crescimento de importações pode servir como alerta para que políticas industriais mais inteligentes e consistentes sejam adotadas. Fomentar a produção local não é apenas uma questão de proteção, mas de sustentabilidade econômica. Empresas que investem no país necessitam de previsibilidade e de um ambiente que premie o desenvolvimento interno de tecnologia e inovação, fortalecendo a cadeia industrial e garantindo empregos de qualidade.
Além disso, a competição com marcas chinesas acentua a necessidade de modernização e diversificação da indústria automotiva nacional. Investimentos em veículos elétricos, híbridos e tecnologias de mobilidade sustentável podem representar um diferencial competitivo importante. O Brasil possui capacidade industrial e um mercado consumidor relevante, mas precisa de políticas coerentes para transformar essas potencialidades em resultados concretos.
O desafio colocado pelo crescimento das importações não é apenas econômico, mas estratégico. A Stellantis, ao alertar sobre a insuficiência das medidas atuais, evidencia que proteger a indústria automotiva vai além de tarifas e alíquotas; envolve planejamento de longo prazo, incentivos à inovação e políticas que valorizem o investimento local. A preservação do setor depende de ações integradas que combinem estímulo à produção nacional com regulação eficiente da importação, garantindo competitividade sem sacrificar a sustentabilidade econômica.
Diante deste cenário, fica claro que a indústria automotiva brasileira precisa de uma abordagem mais ampla, que considere não apenas os números de importação, mas também os impactos sobre empregos, inovação e cadeia produtiva. A manutenção de políticas defensivas isoladas não será suficiente para assegurar a vitalidade do setor. O equilíbrio entre proteção, incentivo e modernização é fundamental para transformar desafios em oportunidades, garantindo que o Brasil continue a ser um polo relevante no mercado automotivo global.
Autor: Diego Velázquez
